quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Arte e Cidade

Nos ultimos anos, é perceptivel o crescimento do acesso às artes. Cada vez mais os grandes centros, as grandes empresas, as grandes corporações, os grandes políticos, e outros tantos grandes das cidades vêm tentando se sobressair através da promoção de algum evento artístico. Para o cidadão, uma ótima oportunidade de acesso a uma realidade que muitas vezes não está tão presente em seu dia-a-dia.

Otilia Arantes, em seu livro Urbanismo em Fim de Linha, exemplifica essa massificação cultural com os novos-museus, que por certo não proliferam por um novo e surpreendente surto de amor à arte. É ao processo de culturalização da vida, concomitante ao de comodificação da cultura, a que temos que recorrer para entender o porquê do sem-número de Centros Culturais, Casas de Espetáculo e Museus. O Museu de Bilbao, por exemplo, seria um lance político ou ousadia estética? Ou ainda, quem sabe, uma combinação nada inocente das duas coisas?... Todo este patrimônio cultural, alardeado com estardalhaço, e que exige muita imaginação de arquitetos e urbanistas, vai criando um verdadeiro star system mundial disputadíssimo por um mercado cada vez mais exigente. Paris é com certeza mais rapidamente associada às tubulações coloridas do Beaubourg ou à Pirâmide do Novo-Louvre – imagem esta que hoje quase tem a força do logotipo da Coca-Cola, de tanto que é utilizada em reclames publicitários, especialmente no campo da moda – do que à velha Notre-Dame ou à Torre Eiffel. Aliás, como por contaminação, as próprias cidades foram se transformando em museus, através da estetização da vida urbana encenada nesses novos “espaços públicos”.




Além dessas grandiosas propostas de intervenções artísticas, outras de menor porte, ou talvez mais informais, também buscam se sobressair. Em São Paulo, a alguns anos atrás, iniciou-se o Arte/Cidade, cujo objetivo seria o de valorizar as identidades urbanas através da promoção da arte como lugares únicos. Nelson Brissac diz que pode ser eficaz uma estratégia que pressupõe a cultura como a argamassa capaz de sedimentar mais uma vez o tecido da vida comunitária, rompido pela escala metropolitana da cidade e pela abstração crescente dos processos urbanos e relações sociais. Mais informalidade ainda, talvez na utilização de vazios urbanos, como edifícios não-concluídos. O projeto Topografias Cênicas, parceria dos grupos de teatro Cia. Suspensa e Armatrux + Vazio S/A, explora esse tipo de 'vazio' através de eventos realizados em espaços temporariamente adaptados para receber atores e população.

Em entrevista no programa Manhattan Connection da GNT nesta semana, o artista plástico Vik Muniz, nascido em São Paulo, mas residente em New York, falou um pouco sobre seu trabalho e suas exposições em todo o mundo. Segundo ele, a paisagem mudou, e consequentemente a forma como a encaramos tambem mudou. O entretenimento é parte de todos os eixos da vida, e passou a ser exigido como tal. E o acesso à essa arte, geralmente vista como entretenimento, tem aumentado significadamente. E ele, enquanto artista, tem papel fundamental na difusão dessa arte, e na relação que ela exerce com o cotidiano das pessoas.


Nesta mesma semana, ocorreu em Vitória, ES, um seminário intitulado "Interterritorialidades: Fronteiras Líquidas. Passagens, Cartografias, Imaginários", que vem abrir as inscrições para o concurso de projetos de intervenções urbanas de caráter efêmero e temporário para o 8º Salão do Mar, voltado para práticas artísticas que estabeleçam uma relação interdisciplinar com a cidade, seus espaços e habitantes.


Certamente que todas essas possibilidades de acesso à arte e cultura ainda não são suficientes para que todos sejam atingidos. Porém, este é o caminho. É cada vez mais urgente que haja esse incentivo à facilitação entre população e arte.

Um comentário:

διδαχη disse...

Não sabia que vc blogava, como eu. Que ótimo. Depois quero ler tudo com calma. Já percebi que o tópico pode me interessar.